Tron amplia domínio sobre o USDT
A Tron encerrou o segundo trimestre de 2026 com US$ 87,9 bilhões em USDT, superando os US$ 78,7 bilhões registrados pela Ethereum no mesmo período. O levantamento foi apresentado no relatório State of Tron, da Messari, e mostra como a rede fundada por Justin Sun consolidou uma posição relevante na infraestrutura utilizada para movimentar a stablecoin da Tether.
A oferta de stablecoins na Tron cresceu 4,1% em relação ao primeiro trimestre. O USDT representa aproximadamente 99% desse mercado dentro da blockchain, deixando a rede fortemente concentrada em um único ativo e em um único emissor.
A predominância do USDT também ajuda a explicar o perfil de utilização da Tron. Em vez de depender principalmente de operações especulativas, uma parcela significativa da atividade está relacionada à movimentação de dólares digitais entre usuários, empresas e carteiras.
USDT abaixo de US$ 1.000 ganha força na Tron
O dado mais relevante para entender o avanço da Tron está nas transferências de menor valor. A rede respondeu por 52% das transferências de USDT inferiores a US$ 1.000 entre as blockchains que emitem a stablecoin de forma nativa.
Esse segmento é particularmente importante porque reúne operações como remessas, pagamentos e reserva de valor. São transações diferentes de grandes movimentações institucionais ou operações de trading, pois representam situações nas quais usuários utilizam o USDT para transferir dinheiro.
A fonte relaciona esse comportamento principalmente a mercados emergentes, incluindo África, sudeste asiático e América Latina. Nessas regiões, o USDT pode ser utilizado como alternativa digital ao dólar físico, enquanto a infraestrutura da Tron busca reduzir o custo e a complexidade das transferências.
Outro fator citado é a possibilidade de realizar transações sem que o usuário precise manter TRX para pagar o gás. O recurso, chamado gasless, reduz uma etapa operacional para quem deseja simplesmente movimentar USDT pela rede.
Na prática, isso pode ser relevante para usuários que não querem adquirir o token nativo da blockchain apenas para pagar uma taxa antes de enviar uma stablecoin.
Atividade da rede bate novos recordes
O crescimento da utilização do USDT veio acompanhado de números elevados de atividade on-chain. No segundo trimestre, a Tron registrou média de 11,8 milhões de transações por dia e aproximadamente 3,6 milhões de endereços ativos diariamente.
Segundo a reportagem, esse foi o terceiro trimestre consecutivo em que a atividade da rede atingiu recorde. Os números ajudam a dimensionar o volume de utilização que está por trás da posição da Tron no mercado de stablecoins.
Alex Obchakevich, sócio da empresa de análise Artemis, avaliou que os dados apontam para uma utilização relacionada à demanda não especulativa. A interpretação está diretamente ligada ao perfil das transferências menores, nas quais o USDT funciona como meio de movimentação de valor.
Para o trader, esse ponto merece atenção porque volume de stablecoin e volume de negociação são métricas diferentes. Uma blockchain pode processar grandes quantidades de USDT sem que isso signifique necessariamente uma alta equivalente na atividade especulativa de seus tokens.
Cartões cripto movimentam US$ 887 milhões
A Tron também aparece com força no mercado de cartões vinculados a criptomoedas. De acordo com os dados apresentados na notícia, a rede liquidou US$ 887 milhões em transações de cartões cripto, correspondendo a 34% desse mercado.
No terceiro trimestre, a Tron também mantinha a liderança nas recargas de cartões, com 21% de participação e US$ 108,5 milhões movimentados de um total rastreado de US$ 509,6 milhões.
Esses números reforçam a diferença entre utilizar uma blockchain apenas para aplicações de negociação e utilizá-la como infraestrutura de pagamentos. Nesse caso, a Tron está sendo usada como trilho para movimentações que começam ou terminam em produtos voltados ao uso cotidiano de criptomoedas.
A rede também teria avançado na construção de infraestrutura voltada ao mercado institucional nos nove meses anteriores ao levantamento. Nesse período, segundo a fonte, ocorreu ainda o primeiro lançamento de RWA, ou ativo do mundo real tokenizado, na blockchain.
Tron ganha espaço, mas concentração exige atenção
O avanço da Tron não significa que a Ethereum tenha deixado de ser relevante para stablecoins. O ponto destacado pelo levantamento é que a Tron terminou o segundo trimestre com uma quantidade maior de USDT hospedada na rede: US$ 87,9 bilhões contra US$ 78,7 bilhões da Ethereum.
Ao mesmo tempo, existe uma concentração elevada dentro da própria Tron. Quase 99% das stablecoins da rede são representadas pelo USDT, o que faz com que mudanças relacionadas à Tether tenham impacto particularmente importante sobre o ecossistema.
Essa concentração é diferente da situação observada na Ethereum, que possui uma distribuição mais diversificada entre diferentes emissores de stablecoins. Para quem utiliza essas redes para movimentar recursos, essa diferença deve entrar na análise de risco operacional.
No Brasil, a notícia também destaca a relevância do USDT para operações envolvendo exchanges locais. O texto cita crescimento de 71% no volume de stablecoins entre investidores de exchanges brasileiras no último ciclo e menciona o uso do USDT em remessas internacionais, pagamentos a fornecedores e proteção cambial.
A reportagem também relaciona esse cenário ao dólar cotado em R$ 5,1762 e a uma norma do Banco Central que prevê retenção de stablecoins por até 24 horas em determinadas operações classificadas como suspeitas.
Para o investidor brasileiro, portanto, a evolução da Tron não deve ser analisada apenas pelo preço do TRX. O dado mais importante é a função que a rede está desempenhando no transporte de USDT e em aplicações de pagamento. A expansão das transferências de menor valor mostra uma utilização concreta da infraestrutura, enquanto a forte concentração em USDT cria um ponto de atenção que merece acompanhamento.