A Robinhood deu um passo mais agressivo na disputa por espaço entre corretoras, exchanges e apps financeiros ao lançar, na quarta-feira, 2 de julho de 2026, a mainnet pública da Robinhood Chain, sua blockchain de segunda camada no Ethereum. A rede foi construída sobre a infraestrutura da Arbitrum e chega acompanhada de uma estratégia que mistura ações tokenizadas, integração com protocolos de DeFi, uso de IA e expansão internacional do braço cripto da companhia.

O anúncio é relevante porque não se trata apenas de uma nova blockchain. A Robinhood está tentando usar sua base de quase 28 milhões de clientes, sua marca no varejo financeiro americano e uma nova pilha de produtos on-chain para criar uma ponte entre mercado tradicional e infraestrutura cripto. Isso acontece num momento delicado para a empresa: no mês passado, ela cortou cerca de 10% da equipe depois de ver a receita de cripto cair de US$ 221 milhões para US$ 134 milhões, uma queda de 34% na comparação trimestral.

Robinhood Chain nasce como layer 2 no Ethereum com base em Arbitrum

A nova Robinhood Chain foi apresentada como uma rede de segunda camada do Ethereum baseada em Arbitrum. Segundo a empresa, a proposta da blockchain é servir como ponte entre o universo das criptomoedas e o das finanças tradicionais, com foco inicial em liquidez, tokenização de ativos e experiências mais simples para o usuário final.

No lançamento, a Robinhood já anunciou integrações e parcerias com nomes relevantes da infraestrutura cripto. A rede terá integração com BitGo e Chainlink, além de parcerias com Uniswap e Pleiades. De acordo com a descrição da companhia, a Uniswap entra para apoiar a criação de mercado automatizada dedicada à liquidez pública, enquanto a Pleiades ficará ligada à negociação proprietária dentro do ecossistema da nova chain.

A empresa também classificou a Robinhood Chain como uma rede “nativa de IA”, afirmando que ela dará suporte à negociação por agentes de inteligência artificial. O texto da reportagem não detalha como esses agentes vão operar na prática, quais permissões terão nem quais produtos estarão disponíveis já no lançamento, então esse ponto precisa ser tratado como direção estratégica da empresa — e não como uma funcionalidade totalmente explicada.

Aposta central são ações tokenizadas como Apple e Nvidia

O pilar mais ambicioso do anúncio está nos chamados “Stock Tokens”, nome usado pela Robinhood para representar ações tokenizadas e on-chain de grandes empresas globais. A reportagem cita especificamente papéis de companhias como Nvidia e Apple.

A proposta da corretora é que usuários em jurisdições elegíveis — e a matéria ressalta que isso não inclui os Estados Unidos — possam usar esses tokens de ações em estruturas típicas do DeFi. Entre os usos previstos estão a alocação dos ativos em pools de empréstimo e o uso dos tokens como garantia em protocolos descentralizados.

Na prática, a Robinhood está tentando fazer algo maior do que simplesmente oferecer compra e venda de ações fracionadas ou exposição sintética. A ideia é transformar papéis tradicionais em ativos programáveis dentro de uma rede blockchain, permitindo que o investidor use a posição em ações de forma semelhante ao que hoje já acontece com stablecoins e outros criptoativos em protocolos de empréstimo e liquidez.

Wallet ganha perpétuos e lending com stablecoin USDG

O lançamento da Robinhood Chain veio acompanhado de uma expansão da Robinhood Wallet, que passa a concentrar mais funções além da custódia e da compra básica de ativos. A empresa informou que vai abrir negociações de contratos perpétuos diretamente na carteira por meio da Lighter, descrita na reportagem como uma exchange descentralizada de perpétuos.

Além disso, usuários elegíveis dos Estados Unidos poderão acessar o Robinhood Earn, recurso que permite emprestar a stablecoin USDG, lastreada em dólar, em troca de rendimento de cerca de 7% ao ano (APY). Esse ponto é relevante porque mostra a Robinhood tentando competir não apenas com corretoras tradicionais, mas também com plataformas de renda em stablecoins e com aplicativos que oferecem produtos de crédito on-chain.

A combinação de perpétuos dentro da carteira, lending com stablecoin e tokenização de ações mostra que a Robinhood está montando uma oferta mais parecida com um superapp financeiro cripto. Em vez de depender apenas da receita de corretagem ou de spreads de negociação, a empresa tenta abrir novas linhas de monetização dentro do próprio ecossistema blockchain.

Expansão geográfica vira peça-chave da estratégia cripto

Outro eixo importante do anúncio foi a expansão geográfica. A Robinhood informou que está abrindo sua estrutura para usuários do Canadá e que pretende atender, em breve, clientes de Singapura. A empresa também afirmou que espera oferecer serviços de criptomoedas no Reino Unido em um futuro próximo.

Esse movimento se soma à base já existente de quase 28 milhões de clientes da companhia e ajuda a entender por que a Robinhood está investindo em infraestrutura própria em vez de ficar só na distribuição de produtos de terceiros. Se conseguir combinar carteira, trading, ações tokenizadas, lending e uma chain própria, a empresa passa a ter mais controle sobre a experiência do usuário e também sobre as fontes de receita ligadas ao uso da rede.

No caso dos Stock Tokens, a geografia importa ainda mais. Como a matéria deixa claro que o produto não estará disponível para usuários dos EUA, o crescimento internacional vira peça essencial para a tese de adoção dessas ações tokenizadas.

Lançamento acontece após queda forte da receita com cripto

A ofensiva da Robinhood em blockchain e DeFi acontece em meio a um momento de pressão operacional. Segundo a reportagem, no mês passado a companhia demitiu cerca de 10% de sua equipe depois de enfrentar uma queda forte na receita gerada por suas ofertas de criptomoedas.

Os números citados são relevantes: a receita com cripto caiu 34% trimestre a trimestre, recuando de US$ 221 milhões para US$ 134 milhões. Esse dado ajuda a explicar por que a Robinhood está acelerando em novas frentes como tokenização, perpétuos, stablecoins e infraestrutura própria. Não parece ser apenas um lançamento de branding; há um esforço claro para reconstruir crescimento e diversificar a monetização do braço cripto.

Mesmo assim, o mercado reagiu bem no curto prazo. As ações da Robinhood, negociadas sob o ticker HOOD, fecharam o pregão anterior em alta de mais de 8% e acumulavam quase 20% de valorização no último mês, cotadas a US$ 108,65. Ainda assim, o papel segue mais de 29% abaixo da máxima de 52 semanas, que foi de US$ 153,86.

O que esse movimento diz sobre o mercado cripto

O lançamento da Robinhood Chain mostra como a disputa no mercado cripto está migrando de “quem lista mais moedas” para “quem controla a infraestrutura, a liquidez e o relacionamento com o usuário”. Em vez de se limitar a operar como corretora, a Robinhood quer estar na rede, na carteira, na camada de negociação, no lending e na tokenização de ativos tradicionais.

Para o investidor, o sinal mais importante não é só a existência de mais uma blockchain. O ponto central é que uma empresa listada em bolsa e com dezenas de milhões de clientes está tentando transformar ações tokenizadas em produto de massa, usando Ethereum, Arbitrum, DeFi e IA como base operacional. Se a execução funcionar, isso pode acelerar a competição por tokenização de ações, renda em stablecoins e produtos híbridos entre mercado tradicional e cripto.