Paulo Guedes participou de reuniões e eventos da OnilX

O ex-ministro da Economia Paulo Guedes manteve uma relação profissional com a OnilX, empresa do setor de criptomoedas que enfrenta questionamentos regulatórios e ações judiciais de investidores. Segundo informações divulgadas pelo Metrópoles e repercutidas pelo Portal do Bitcoin em 25 de setembro de 2026, Guedes prestou serviços de consultoria, participou de encontros comerciais e teve sua imagem associada às atividades da companhia.

Embora não conste entre os sócios da OnilX, o ex-ministro participou de reuniões com investidores e representantes comerciais da empresa. Em dezembro de 2025, uma publicação da própria companhia mostrou Guedes ao lado de Fábio Lino, controlador da OnilX, e de executivos da Visa, durante um encontro apresentado como uma discussão estratégica sobre a utilização de criptomoedas.

Guedes também participou de uma palestra que reuniu aproximadamente 500 investidores e assessores, ocasião em que fez comentários favoráveis ao posicionamento da empresa diante das transformações tecnológicas no setor financeiro. Em outro episódio, mensagens anexadas a um processo judicial mostram que uma assessora da OnilX mencionou a presença do ex-ministro no escritório da companhia, localizado na Faria Lima, em São Paulo, ao apresentar o negócio a um potencial cliente.

A reportagem do Metrópoles procurou Paulo Guedes para esclarecer os detalhes de sua participação na empresa, mas ele não apresentou comentários. Fábio Lino também não respondeu às perguntas sobre as condições da contratação do ex-ministro e os processos judiciais envolvendo investidores.

Investidores cobram R$ 876,5 mil e R$ 632,2 mil da OnilX

A relação de Paulo Guedes com a companhia aparece em uma das ações judiciais movidas por clientes que buscam recuperar valores investidos. Um casal afirma ter participado de uma reunião com o ex-ministro na sede da OnilX, em abril de 2026, e relata que o encontro contribuiu para sua decisão de manter e ampliar os recursos aplicados na plataforma.

Segundo os autores do processo, a presença de Guedes aumentou sua confiança na empresa, mas, aproximadamente quatro meses depois da reunião, eles teriam encontrado dificuldades para retirar o dinheiro. O casal busca recuperar R$ 876,5 mil, valor mencionado na ação judicial apresentada contra a companhia.

Outro processo identificado pela reportagem envolve uma empresa que solicita a devolução de R$ 632,2 mil aplicados por meio da plataforma. Os dois casos fazem parte de um conjunto maior de reclamações judiciais relacionadas a dificuldades de resgate de recursos.

O Metrópoles identificou 108 ações judiciais contra empresas do grupo OnilX entre 12 de junho e 10 de setembro de 2026, distribuídas em diferentes estados brasileiros.

Entre os locais onde foram registrados processos estão:

As reclamações representam alegações apresentadas pelos investidores e não constituem, por si só, decisões judiciais definitivas sobre a responsabilidade da empresa ou de Paulo Guedes.

CVM determinou suspensão de ofertas de valores mobiliários em janeiro de 2026

Os questionamentos envolvendo a OnilX não se limitam às ações movidas por clientes, uma vez que a companhia também passou por uma intervenção regulatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em 12 de janeiro de 2026, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários da CVM determinou que empresas vinculadas ao grupo interrompessem imediatamente a oferta pública de serviços de intermediação de valores mobiliários.

A medida foi adotada após a identificação de indícios de que empresas do grupo estariam buscando clientes brasileiros para operações que poderiam ser classificadas como valores mobiliários sem possuir a autorização exigida pelo órgão regulador.

A CVM também informou que as empresas envolvidas não estavam autorizadas a atuar como assessoras de investimentos, intermediar valores mobiliários ou captar recursos destinados à aplicação nesses instrumentos financeiros.

O descumprimento da determinação poderia resultar em multa diária de R$ 1 mil, conforme estabelecido pela autarquia.

A restrição está relacionada às atividades sujeitas à fiscalização da CVM e não deve ser interpretada como uma proibição automática de todas as operações com criptomoedas realizadas pela OnilX.

CVM esclareceu em abril quais operações cripto poderiam continuar

A OnilX apresentou recurso contra a determinação da CVM, e o caso voltou a ser analisado pelo colegiado da autarquia em 1º de abril de 2026.

Na ocasião, a maioria dos integrantes do colegiado decidiu manter a restrição, mas esclareceu que a medida não deveria impedir a intermediação de criptomoedas que não fossem classificadas como valores mobiliários.

Isso significa que a negociação de ativos como Bitcoin, Ethereum e USDT pode permanecer fora do alcance daquela restrição específica quando não estiver vinculada a estruturas consideradas valores mobiliários, como determinados contratos de investimento.

A CVM reiterou, entretanto, que o grupo OnilX não possui autorização para distribuir ou intermediar valores mobiliários, prestar serviços de assessoria de investimentos ou administrar carteiras de investimentos.

A advogada Anne Caroline Marciquevik, que anteriormente atuou como assessora especial de Paulo Guedes, representou a OnilX nas tratativas com o órgão regulador.

Segundo levantamento citado pelo Metrópoles, a advogada participou de seis reuniões com representantes da CVM após a publicação da determinação inicial.

O procedimento administrativo relacionado à empresa continuou em andamento para avaliar a existência de elementos que pudessem justificar a adoção de medidas sancionadoras.

OnilX enfrenta reclamações sobre resgates e rendimentos de até 2,8% ao mês

Além dos questionamentos regulatórios, investidores afirmam ter aplicado milhões de reais em produtos relacionados a criptomoedas e stablecoins comercializados pela OnilX.

De acordo com os relatos apresentados ao Metrópoles, determinados produtos eram oferecidos com perspectiva de rendimentos de até 2,8% ao mês e possibilidade de resgate rápido, características que atraíram clientes interessados em obter retorno financeiro por meio de ativos digitais.

Parte desses investidores afirma que encontrou dificuldades para retirar os recursos e decidiu recorrer à Justiça para solicitar a devolução dos valores aplicados.

Em agosto de 2026, uma reclamação publicada no Reclame Aqui também relatou atraso na liberação de dinheiro solicitado por um cliente.

Na resposta apresentada à plataforma, a OnilX atribuiu o episódio a problemas operacionais e informou que a situação específica havia sido posteriormente solucionada.

A companhia contesta a interpretação de que a determinação da CVM tenha proibido integralmente suas atividades e sustenta que continua autorizada a realizar operações legítimas com criptomoedas que não sejam valores mobiliários.

OnilX apresenta sua defesa e contesta acusações de investidores

Em manifestação publicada em seu próprio site e reproduzida pelo Metrópoles, a OnilX afirmou que está formalmente constituída e que atua há aproximadamente cinco anos no mercado de ativos virtuais.

A empresa declarou que suas atividades incluem compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas, além de contestar a interpretação de que todos os seus serviços estariam abrangidos pela determinação da CVM.

Segundo a versão apresentada pela companhia, ela não exerce atividades de gestão de investimentos, não oferece contratos de investimento coletivo e não garante rentabilidade fixa aos clientes.

A OnilX sustenta que a discussão regulatória envolve exclusivamente operações que possam ser classificadas como valores mobiliários, sem alcançar automaticamente a negociação convencional de ativos digitais.

As 108 ações judiciais identificadas pela reportagem ainda dependem da análise individual da Justiça, e a existência desses processos não equivale a uma condenação definitiva da companhia.

Para o investidor brasileiro, o caso apresenta três questões distintas: a participação profissional de Paulo Guedes na empresa, as reclamações judiciais relacionadas à recuperação de recursos e os limites das atividades que a OnilX pode exercer conforme as determinações da CVM.