MPSP abre ação contra Tools for Humanity e AWS

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) ingressou com uma ação civil pública contra a Tools for Humanity, responsável pelo projeto World ID, e contra a Amazon Web Services (AWS). A ação foi ajuizada pela Promotoria de Justiça do Consumidor da Capital em 20 de julho de 2026 e pede indenização mínima de R$ 240 milhões por danos morais coletivos.

Segundo a Promotoria, o caso envolve a coleta de dados biométricos da íris de consumidores paulistanos por meio do projeto ligado à World, anteriormente conhecida como Worldcoin. O Ministério Público sustenta que a operação utilizou incentivos financeiros para atrair participantes e que a prática apresentou irregularidades sob a ótica do direito do consumidor.

Além da indenização coletiva, a ação também busca reparação por eventuais danos individuais sofridos pelos consumidores envolvidos.

Mais de 400 mil pessoas participaram da coleta

De acordo com o MPSP, mais de 400 mil pessoas tiveram suas íris escaneadas na cidade de São Paulo em troca de compensações financeiras que variavam entre R$ 300 e R$ 700.

A Promotoria afirma que a iniciativa atingiu principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Segundo a acusação, a oferta de pagamento poderia comprometer a liberdade de decisão dos consumidores ao fornecer um dado biométrico considerado sensível.

Outro ponto destacado pelo Ministério Público é que as operações teriam sido concentradas em regiões periféricas e locais de grande circulação, incluindo áreas próximas a estações de metrô e unidades do Poupatempo. Para a Promotoria, essa estratégia ampliou o alcance do projeto justamente entre públicos mais vulneráveis.

Promotoria aponta falhas no consentimento

Na ação, a promotora Patrícia Leitão sustenta que os participantes não receberam informações suficientes sobre diversos aspectos do tratamento dos dados biométricos.

Entre os pontos citados estão:

Segundo o Ministério Público, esse conjunto de fatores pode caracterizar publicidade enganosa, exploração da vulnerabilidade econômica dos consumidores e vício no consentimento, já que os participantes não teriam recebido informações claras para tomar uma decisão plenamente consciente.

Pedidos incluem exclusão dos dados e suspensão das coletas

Como medida liminar, o MPSP solicita que as empresas preservem todos os registros, metadados e documentos relacionados ao processamento das informações coletadas.

A ação também pede a apresentação de contratos e relatórios técnicos sobre armazenamento dos dados, além da identificação da empresa do grupo Amazon responsável pela hospedagem dessas informações.

No julgamento do mérito, o Ministério Público requer que a Justiça:

Caso tem origem na CPI da Íris

A ação judicial foi fundamentada, entre outros elementos, no relatório final da chamada CPI da Íris, conduzida pela Câmara Municipal de São Paulo.

Encerrada em abril, a comissão aprovou por unanimidade um relatório de 161 páginas, concluindo que a atuação da Tools for Humanity ocorreu em grave desconformidade com o ordenamento jurídico brasileiro. O documento também levantou preocupações relacionadas à transparência, proteção de dados, consentimento dos participantes e direcionamento das operações para populações vulneráveis.

O relatório ainda associou a escolha do Brasil como um dos principais mercados do projeto à combinação entre vulnerabilidade social e percepção de menor rigor regulatório.

Histórico do projeto e próximos passos

O World ID foi desenvolvido para criar uma identidade digital baseada em biometria capaz de comprovar que um usuário é uma pessoa real, em um contexto de crescimento da inteligência artificial e de bots.

A Tools for Humanity já declarou anteriormente que não compra íris nem armazena dados biométricos brutos. Segundo a empresa, o escaneamento gera apenas uma representação criptográfica utilizada para evitar cadastros duplicados e ampliar a privacidade digital.

O caso também já vinha sendo acompanhado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que havia determinado a suspensão da oferta de criptomoedas ou qualquer compensação financeira pela coleta da íris. Segundo o MPSP, mesmo após essa determinação, a empresa teria continuado oferecendo benefícios por meio do aplicativo World App.

IndicadorInformação
Órgão autor da açãoMinistério Público de São Paulo (MPSP)
Data do ajuizamento20 de julho de 2026
Empresas processadasTools for Humanity e Amazon Web Services (AWS)
Valor mínimo pedidoR$ 240 milhões
Pessoas com íris coletadaMais de 400 mil
Incentivo financeiro informadoEntre R$ 300 e R$ 700
Base da açãoRelatório da CPI da Íris e investigação do MPSP