TRUMP acumula perdas bilionárias para quase 1 milhão de compradores
A memecoin Official Trump (TRUMP) gerou um prejuízo agregado de US$ 3,81 bilhões para 988.905 compradores até o fim de junho, de acordo com uma análise da Nansen citada pelo The New York Times. O número representa cerca de dois em cada três compradores do token, segundo a reportagem. No mesmo levantamento, a Nansen apontou que pouco menos de 500 mil carteiras registraram lucro com a memecoin, somando US$ 4 bilhões.
O ponto central do relatório é a distribuição desigual desses resultados. Segundo a Nansen, um grupo menor de compradores que entrou cedo capturou ganhos muito acima da média, enquanto a maior parte dos investidores individuais absorveu as perdas. Na prática, o saldo líquido dos compradores do token ficou próximo de US$ 200 milhões em lucro, mas isso não muda o fato de que a massa de varejo terminou no vermelho enquanto uma minoria concentrou a maior parte da valorização.
Lançamento da memecoin coincidiu com volta de Trump à Casa Branca
Trump divulgou a moeda em 18 de janeiro, por meio de uma publicação no X, poucos dias antes de reassumir a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2025. O token chegou rapidamente ao pico de mais de US$ 73, embalado pela atenção em torno do nome do presidente e pela corrida especulativa típica de memecoins. Desde então, a correção foi brutal.
Segundo dados do CoinGecko citados pela reportagem, o TRUMP recuou mais de 97% desde a máxima e era negociado perto de US$ 1,70 no momento do texto original. Essa trajetória ajuda a explicar por que o número de carteiras no prejuízo é tão alto: quem entrou depois da euforia inicial ficou exposto a uma queda praticamente contínua do preço. Para o trader, esse é o dado mais importante da história: o ativo teve um pico explosivo, mas não sustentou valor depois da fase inicial de hype.
Declaração financeira reacende debate sobre conflito de interesse
O relatório da Nansen saiu poucos dias depois da divulgação da declaração financeira anual de Trump, publicada na semana anterior à matéria. O documento, com quase mil páginas, mostrou que o presidente recebeu mais de US$ 1,4 bilhão em rendimentos de empreendimentos ligados a criptomoedas no último ano. Dentro desse montante, a reportagem destaca que Trump lucrou mais de US$ 630 milhões com a memecoin TRUMP.
A combinação desses números elevou novamente o debate sobre conflito de interesse envolvendo negócios cripto de um presidente em exercício. A crítica central é simples: enquanto centenas de milhares de compradores amargaram perdas relevantes, o criador e as estruturas ligadas à marca presidencial capturaram receitas expressivas. Para o mercado, isso adiciona um componente político à análise do token, porque a precificação deixa de depender apenas de fluxo e narrativa especulativa e passa a carregar também risco reputacional e regulatório.
Ganhos ficaram concentrados em uma minoria de carteiras
O retrato desenhado pela Nansen reforça uma dinâmica recorrente em memecoins: a assimetria entre quem entra no começo e quem compra depois que o ativo já viralizou. De um lado, 988.905 compradores terminaram no vermelho. Do outro, um grupo de menos de 500 mil carteiras acumulou US$ 4 bilhões em lucro com o token.
A própria Nansen resumiu esse quadro como um mercado em que um pequeno número de compradores iniciais obteve ganhos enormes, enquanto a maioria dos investidores de varejo absorveu as perdas. Para quem opera esse tipo de ativo, o dado é mais útil do que qualquer narrativa política: ele mostra que o risco não está só na volatilidade, mas também na estrutura de distribuição do token e no timing de entrada.
World Liberty Financial também aparece com maioria no prejuízo
A Nansen também avaliou o World Liberty Financial (WLFI), token ligado à plataforma de negociação de criptomoedas de mesmo nome, que tem Donald Trump e seus três filhos como cofundadores. Segundo a reportagem, o WLFI foi vendido inicialmente a US$ 0,015 e depois a US$ 0,05. A leitura da empresa é que quem comprou a US$ 0,05 provavelmente conseguiu apenas um lucro pequeno.
No universo de quase 27 mil carteiras rastreadas pela Nansen, 85% registraram prejuízo, somando US$ 83 milhões em perdas. As demais carteiras lucraram US$ 23 milhões. A empresa ainda ressalvou que o número real de investidores no vermelho pode ser maior, porque parte das compras ocorreu em corretoras secundárias sem transparência pública de dados on-chain.
A reportagem informa ainda que o WLFI foi disponibilizado ao público por meio de corretoras secundárias em setembro. Mesmo com a maioria dos investidores no prejuízo, a declaração financeira de Trump mostrou que ele faturou pouco menos de US$ 800 milhões com a plataforma World Liberty Financial no ano passado, já que uma empresa ligada ao presidente retém 75% das vendas do WLFI, independentemente do preço do token no mercado.
O que o caso mostra para quem opera memecoins
O caso TRUMP é um exemplo claro de como uma memecoin ligada a uma figura pública pode concentrar liquidez, atenção e ganhos em uma janela muito curta, deixando a maior parte do varejo exposta quando o fluxo seca. Os números da Nansen ajudam a separar narrativa de resultado: o token movimentou bilhões, mas a maior parte das carteiras perdeu dinheiro. Isso vale tanto para a memecoin quanto para o ecossistema paralelo montado em torno da marca Trump, como o WLFI.
Para o investidor brasileiro, a leitura prática passa por três pontos. O primeiro é observar quem capturou o upside e em que fase do ciclo isso aconteceu. O segundo é acompanhar a estrutura de distribuição de ganhos e perdas, porque ela revela se o ativo está premiando poucos insiders ou se houve sustentação de demanda ao longo do tempo. O terceiro é tratar tokens com forte componente político e de celebridade como operações de alto risco e prazo curto, não como tese de investimento de longo prazo baseada em fundamento.