Lavagem cripto no Brasil aparece em relatório da Chainalysis
A Chainalysis publicou em 18 de junho de 2026 um relatório sobre como redes globais de crime cripto estão usando o Brasil, maior mercado de ativos digitais da América Latina. Segundo a empresa, o país recebeu US$ 318 bilhões em valor on-chain entre julho de 2024 e junho de 2025, o equivalente a cerca de um terço de todo o volume cripto recebido na América Latina.
O relatório aponta que esse tamanho de mercado atraiu não só investidores, fintechs e usuários de stablecoins, mas também organizações criminosas internacionais. A análise cita redes chinesas de lavagem de dinheiro, entidades russas ligadas à evasão de sanções e grupos relacionados ao tráfico de drogas.
Em 2025, essas três categorias responderam por mais de 50% dos fluxos ilícitos identificados em exchanges brasileiras selecionadas. A Chainalysis ressalta que isso não é uma acusação contra uma corretora específica, mas um sinal de que o mercado local virou rota relevante para redes que já atuam globalmente.
Cartéis, Rússia e redes chinesas entram no radar
Entre 2023 e 2025, o perfil dos fluxos ilícitos para exchanges brasileiras mudou. Em 2023, a entrada de recursos suspeitos era mais espalhada entre diferentes tipos de atividade. Já em 2024 e 2025, a lavagem ligada a cartéis passou a aparecer como a maior categoria identificada.
A Chainalysis relaciona esse ponto à posição do Brasil nas rotas sul-americanas de cocaína e também ao fato de o país ser mercado consumidor. O relatório cita grupos brasileiros como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), mencionados em documentação sobre uso de criptomoedas em operações financeiras.
Outro bloco importante são as Chinese-Language Money Laundering Networks (CMLNs). Essas redes funcionam como lavagem de dinheiro como serviço, atendendo tráfico, fraudes e até atores estatais. Segundo a Chainalysis, as CMLNs representam cerca de 20% do ecossistema conhecido de lavagem ilícita on-chain.
Também aparecem fluxos ligados à Rússia, incluindo entidades sujeitas a sanções internacionais. A empresa conecta esse movimento ao fechamento de canais financeiros tradicionais após a invasão da Ucrânia em 2022, o que aumentou o uso de cripto e mercados emergentes como rotas alternativas.
Números globais ajudam a entender o tamanho do problema
A Chainalysis afirma que endereços ilícitos receberam US$ 154 bilhões em 2025, contra US$ 59 bilhões em 2024 e US$ 11 bilhões em 2020. O salto mostra que o crime on-chain não cresceu apenas em volume, mas também em estrutura.
A evasão de sanções por atores estatais chegou a aproximadamente US$ 104 bilhões em 2025, avanço de 694% em relação ao ano anterior. Esse dado é importante porque o relatório aponta que fluxos relacionados à Rússia ficaram mais visíveis no Brasil em 2024 e 2025.
A Chainalysis também diz que as stablecoins passaram a concentrar a maior parte do valor ilícito cripto global. O motivo é simples: criminosos querem liquidez, estabilidade de preço e liquidação rápida. Para o investidor brasileiro, isso reforça por que stablecoin virou tema central em compliance, câmbio e regulação.
Cinco endereços concentram grande parte do fluxo ilícito
O dado mais prático do relatório está na concentração dos fluxos. A Chainalysis identificou que o número de endereços de depósito expostos a entradas ilícitas em exchanges brasileiras ficou entre 550 e 950 por trimestre entre 2023 e o início de 2026.
Apesar dessa quantidade grande de endereços, os cinco endereços mais expostos por trimestre concentraram entre 75% e 90% do volume ilícito recebido. Em março de 2026, cerca de 80% desses volumes estavam concentrados em apenas cinco endereços.
Isso muda a leitura do problema. Não se trata apenas de milhares de carteiras impossíveis de acompanhar, mas de volumes relevantes passando por pontos específicos. Para reguladores, corretoras e autoridades, esse tipo de concentração facilita monitoramento, reporte e investigação.
A Chainalysis também menciona a presença, no Brasil, de guarantee services, serviços de garantia usados como escrow criminal em fraudes e crime organizado. Para a empresa, isso indica que o mercado local já está conectado a ecossistemas criminosos mais amplos.
Banco Central terá primeiro teste real em 2026
O relatório chega em um momento sensível para o Brasil. Em novembro de 2025, o Banco Central publicou as Resoluções 519, 520 e 521, que operacionalizam a Lei dos Ativos Virtuais de 2022.
O novo regime para prestadores de serviços de ativos virtuais entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026. As obrigações de reporte começaram em 4 de maio de 2026, e o prazo de autorização para empresas que já atuam no setor vai até 29 de outubro de 2026.
As regras incluem autorização para corretoras, custodiantes e intermediários, além de obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Também entram no pacote exigências ligadas à Travel Rule, que trata do compartilhamento de informações sobre remetentes e destinatários em certas transferências.
Para o trader e investidor brasileiro, o ponto não é pânico, é filtro. O relatório mostra que o uso ilícito existe, mas também mostra que a transparência on-chain permite rastrear padrões, identificar concentração e separar infraestrutura séria de operação mal monitorada.