JPMorgan vê mudança na economia do USDC
O JPMorgan afirmou que o crescimento da Hyperliquid representa um novo desafio para o modelo de negócios da Circle, emissora da stablecoin USDC. Em relatório divulgado na terça-feira (14), analistas liderados por Kenneth Worthington reduziram as projeções para a Circle e também para a Coinbase, apontando que um novo acordo comercial modifica a forma como as receitas das reservas do USDC serão distribuídas.
Segundo o banco, a parceria cria uma situação semelhante a um "dilema do prisioneiro", em que Circle e Coinbase passam a competir pela distribuição do USDC. Na avaliação dos analistas, essa dinâmica incentiva acordos comerciais que ampliam a circulação da stablecoin, mas reduzem a rentabilidade da parceria original entre as duas empresas.
A análise ocorre em um momento de maior concorrência entre emissores de stablecoins e plataformas que disputam a distribuição de ativos digitais lastreados em dólar.
Hyperliquid ganha importância na distribuição do USDC
A Hyperliquid vem ampliando rapidamente sua presença no mercado de criptoativos. A plataforma é atualmente uma das maiores do segmento de futuros perpétuos descentralizados e, segundo o JPMorgan, mantém aproximadamente US$ 6 bilhões em USDC, o equivalente a cerca de 8% de toda a oferta em circulação da stablecoin.
O relatório destaca que esse volume transforma a Hyperliquid em um dos principais canais de distribuição do USDC. Apenas durante o mês de julho, a plataforma movimentou mais de US$ 150 bilhões em volume de negociação.
Outro dado citado pelo banco mostra que a atividade da Hyperliquid já representa 11,5% do volume da Binance, indicando avanço na participação do mercado de derivativos de criptomoedas.
Esses números reforçam a relevância estratégica da plataforma para emissores de stablecoins interessados em ampliar sua presença entre operadores de derivativos descentralizados.
Novo acordo altera divisão das receitas
O principal ponto levantado pelo JPMorgan envolve a forma como os rendimentos das reservas do USDC serão distribuídos entre os participantes do ecossistema.
Pelo novo acordo, a Coinbase passará a considerar o USDC mantido na Hyperliquid como ativo "on-platform", ou seja, como se estivesse dentro de sua própria plataforma. Com isso, a corretora recebe a receita proveniente das reservas da stablecoin e repassa 90% desse valor para a Hyperliquid.
Segundo estimativas do banco, anteriormente a receita gerada por esse capital era dividida de maneira praticamente equilibrada entre Coinbase e Circle.
Na avaliação do JPMorgan, essa mudança reduz significativamente a participação econômica da Circle justamente em um dos canais que mais crescem para utilização do USDC.
Oferta do USDC perde força em meio à concorrência
O relatório também observa que o USDC atravessa um período de desaceleração.
A oferta em circulação caiu para aproximadamente US$ 73 bilhões, depois de ter se aproximado de US$ 80 bilhões em março. Segundo a análise, essa redução acompanha uma retração mais ampla do mercado de stablecoins, que perdeu aproximadamente US$ 10 bilhões desde maio, acompanhando a diminuição da atividade no mercado de criptomoedas.
Ao mesmo tempo, novas stablecoins reguladas disputam espaço com o USDC e o USDT, da Tether.
Além disso, exchanges, bancos e empresas de pagamentos vêm desenvolvendo modelos próprios de distribuição, custódia e monetização de stablecoins, aumentando a competição pelos usuários e pelas receitas geradas pelas reservas em dólar.
Aprovação regulatória não elimina desafios
Apesar da visão mais cautelosa do JPMorgan, a Circle também recebeu recentemente uma notícia positiva.
A empresa obteve aprovação definitiva do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para criar o First National Digital Currency Bank, um banco fiduciário nacional voltado para ativos digitais.
Mesmo assim, o relatório cita uma avaliação recente do Mizuho, segundo a qual parte dos investidores pode estar superestimando o impacto dessa autorização sobre os resultados financeiros da empresa.
Para o JPMorgan, o fator decisivo passa a ser menos a regulação e mais o controle dos canais de distribuição. O banco avalia que, no futuro, a capacidade de capturar receitas dependerá cada vez mais das plataformas que concentram usuários e liquidez, além dos acordos comerciais firmados entre emissores, corretoras e protocolos descentralizados.