O debate sobre a nova regulação cripto dos Estados Unidos ganhou um componente político ainda mais sensível nesta semana. A divulgação de um relatório financeiro de 927 páginas do presidente Donald Trump elevou a pressão sobre o Clarity Act, projeto que busca criar o primeiro marco federal amplo para o mercado de criptoativos no país. O motivo é direto: o documento revelou centenas de milhões de dólares em receitas ligadas a cripto, justamente no momento em que Congresso, Casa Branca e mercado discutem as regras do setor.

O caso mexe com uma das partes mais delicadas do Clarity Act: a inclusão de regras de ética para impedir que presidentes, vice-presidentes, parlamentares e outros agentes públicos lucrem com ativos digitais enquanto ocupam cargos de poder. Até aqui, o projeto vinha sendo tratado como uma tentativa de organizar a divisão de competências entre reguladores e dar previsibilidade jurídica à indústria. Agora, a discussão saiu do campo técnico e entrou de vez no terreno de conflito de interesse, com a família Trump no centro da crise.

Relatório de Trump expõe receitas milionárias ligadas a cripto

Segundo a reportagem, o novo relatório financeiro de Donald Trump mostrou que o presidente registrou centenas de milhões de dólares em receitas ligadas a criptoativos. O principal nome citado é a World Liberty Financial, empresa de finanças descentralizadas lançada pela família Trump em 2024.

A publicação do documento aumentou a pressão porque a World Liberty não aparece como uma exposição indireta ou residual. Ela surge como uma das fontes relevantes de receita da estrutura financeira ligada ao presidente, em um momento em que o governo americano e o Congresso discutem as bases regulatórias do próprio mercado em que a família Trump está inserida.

A situação ganha ainda mais peso político porque o Clarity Act é tratado como uma das propostas mais importantes para o setor nos EUA. O projeto tenta criar regras mais claras para emissão, negociação e enquadramento de ativos digitais, além de reduzir anos de disputa regulatória entre agências e empresas cripto.

Democratas querem regra de ética no Clarity Act

A reação mais imediata veio de senadores democratas que já vinham cobrando limites éticos dentro da nova lei. Após a divulgação do relatório, a senadora Angela Alsobrooks, democrata por Maryland, reforçou publicamente que o texto final precisa incluir restrições para impedir que autoridades públicas usem o cargo para lucrar com ativos digitais.

Na mesma linha, a senadora Kirsten Gillibrand, democrata por Nova York, disse que as negociações seguem em torno de uma reforma ética “rigorosa e bipartidária”. Segundo ela, o objetivo é proibir que presidente, vice-presidente e parlamentares usem criptoativos para ganho pessoal enquanto exercem funções públicas.

A pressão mais dura veio da senadora Elizabeth Warren, uma das principais vozes críticas ao setor cripto no Congresso americano. Warren defendeu que o Clarity Act também impeça familiares de autoridades de lucrar com a indústria. Na avaliação dela, sem esse tipo de trava, a proposta pode abrir espaço para o que chamou de “corrupção cripto descarada” ligada a Trump.

Cynthia Lummis leva pressão ética para dentro do bloco pró-cripto

A discussão não ficou restrita aos democratas. A senadora Cynthia Lummis, republicana do Wyoming e uma das principais defensoras da regulação cripto no Congresso, também afirmou que o Clarity Act precisa conter regras fortes de ética.

Esse ponto é importante porque Lummis é uma das figuras mais associadas à defesa do setor em Washington. Ao dizer que o projeto incluirá disposições robustas de ética negociadas “de boa-fé” com a Casa Branca e com democratas, ela sinaliza que o tema deixou de ser um adendo político e virou parte central da costura legislativa.

Segundo a senadora, a ideia é garantir que nenhuma autoridade eleita, independentemente do partido, possa usar a posição pública para lucrar com ativos digitais. Ela também pediu que congressistas com preocupações sobre ética entrem na negociação do texto em vez de bloquear o avanço da proposta.

Clarity Act deixa de ser só lei de mercado e vira disputa sobre conflito de interesse

Até aqui, o Clarity Act era visto principalmente como um projeto para organizar a casa regulatória dos EUA. A proposta busca definir competências entre os reguladores, estabelecer regras para emissão e negociação de ativos digitais e reduzir a insegurança jurídica que há anos trava parte da indústria cripto americana.

Para empresas do setor, a lei é tratada como uma oportunidade de substituir a atual confusão regulatória por um marco federal mais claro. Para críticos, porém, o projeto não pode avançar sem mecanismos que tratem diretamente do risco de autoridades públicas influenciarem políticas enquanto mantêm interesses financeiros no mesmo mercado.

O relatório de Trump joga combustível exatamente nessa fissura. Em vez de um debate abstrato sobre governança, o Congresso agora tem diante de si um caso concreto envolvendo o presidente dos EUA, sua família e receitas ligadas a cripto. Isso tende a tornar a negociação mais lenta, mais sensível e mais sujeita a barganhas de última hora.

Trump diz que não fala com quem administra seus investimentos

Questionado sobre o relatório financeiro, Donald Trump afirmou que seus investimentos pessoais estão em uma espécie de conta cega e que ele não conversa com os responsáveis pela gestão desses recursos. Segundo a reportagem, Trump disse a repórteres, com base em declaração reproduzida pelo The Hill, que “grandes instituições” administram seu dinheiro e que ele não fala com elas.

A fala tenta reduzir a pressão sobre o conflito de interesse, mas não elimina o problema político. O ponto central da crítica no Congresso não é apenas se Trump escolhe ou não cada operação, mas o fato de o presidente e sua família continuarem expostos financeiramente a um setor que está sendo regulado sob sua gestão.

Além disso, o relatório também mostrou receitas ligadas à primeira-dama Melania Trump. Segundo a divulgação citada na matéria, ela registrou US$ 6 milhões em ganhos com a venda de NFTs, acima dos pouco mais de US$ 216 mil do ano anterior. Melania lançou seu primeiro NFT em 2021, uma aquarela dos olhos de Trump chamada “Melania’s Vision”.

O que muda para o mercado cripto com a pressão ética

Do ponto de vista do mercado, o caso não significa que o Clarity Act morreu ou que a regulação americana será travada automaticamente. O que muda é a natureza da negociação. Antes, o foco principal era definir competência regulatória, regras de emissão, negociação e enquadramento de ativos digitais. Agora, o texto precisa acomodar uma cobrança crescente por travas éticas envolvendo ocupantes de cargos públicos.

Isso pode ter alguns efeitos práticos no curto prazo:

Para o investidor brasileiro, o impacto mais relevante é entender que a regulação dos EUA segue avançando, mas por um caminho mais turbulento. O Clarity Act continua sendo peça-chave para o mercado global, porque pode influenciar listagens, fluxo institucional, estrutura de produtos e a forma como os ativos digitais serão tratados no maior mercado financeiro do mundo. A diferença é que, agora, além da discussão técnica, a lei também carrega o custo político de responder se presidentes, congressistas e seus familiares podem lucrar com cripto enquanto escrevem as regras do jogo.