CBDC entra no centro da disputa política nos EUA

A discussão sobre moedas digitais emitidas por bancos centrais ganhou um novo capítulo em Washington. Parlamentares da Câmara e do Senado dos Estados Unidos avançaram em um acordo legislativo que inclui uma cláusula proibindo o Federal Reserve de emitir uma CBDC, conhecida popularmente como dólar digital.

A medida foi incorporada ao 21st Century ROAD to Housing Act, um amplo pacote voltado ao setor habitacional. Embora o foco principal do projeto seja a política de moradia, os negociadores aproveitaram a tramitação para incluir demandas ligadas ao mercado de ativos digitais.

O tema ganhou força nos últimos anos após o avanço de projetos de moedas digitais estatais em países como China e membros da União Europeia. Nos EUA, porém, parte dos parlamentares vê uma CBDC como uma possível ameaça à privacidade financeira dos cidadãos.

Senado aprova texto com ampla maioria

O Senado norte-americano aprovou o pacote por 84 votos favoráveis e 6 contrários, demonstrando apoio bipartidário à proposta. O resultado chamou atenção porque temas ligados a criptomoedas costumam enfrentar forte divisão entre democratas e republicanos.

A cláusula relacionada à CBDC determina que o Federal Reserve não poderá emitir uma moeda digital de varejo até 31 de dezembro de 2030. O bloqueio também alcança iniciativas indiretas que possam reproduzir características de uma CBDC tradicional.

Segundo o texto, qualquer mudança nesse cenário dependeria de nova autorização legislativa do Congresso norte-americano.

ItemDetalhe
Projeto21st Century ROAD to Housing Act
Votação no Senado84 a 6
Validade da proibiçãoAté 31 de dezembro de 2030
Instituição afetadaFederal Reserve

Tom Emmer segue liderando oposição ao dólar digital

Entre os principais defensores da medida está o deputado Tom Emmer, um dos parlamentares mais ativos na pauta de ativos digitais dentro do Congresso dos EUA.

Emmer argumenta há anos que uma CBDC controlada pelo banco central poderia ampliar a capacidade de monitoramento financeiro do governo federal. O parlamentar já havia liderado iniciativas semelhantes anteriormente, incluindo o chamado CBDC Anti-Surveillance State Act.

A posição do congressista ganhou força dentro da bancada republicana, especialmente após o crescimento das discussões sobre privacidade digital e monitoramento de transações financeiras.

Os defensores da proposta afirmam que uma moeda digital estatal poderia permitir rastreamento excessivo de pagamentos e movimentações financeiras dos cidadãos.

Casa Branca e Congresso reduzem impasse

Um dos pontos mais relevantes do novo avanço legislativo é que o projeto conseguiu superar barreiras políticas que anteriormente travavam o debate.

Relatos do processo legislativo indicam que houve um entendimento entre diferentes grupos políticos para permitir o avanço do pacote habitacional contendo a cláusula anti-CBDC.

O resultado é considerado um dos maiores avanços legislativos recentes envolvendo ativos digitais nos Estados Unidos. Isso ocorre porque o tema deixou de ser uma discussão restrita ao setor cripto e passou a integrar negociações centrais do Congresso.

Apesar disso, o projeto ainda depende das etapas finais do processo legislativo para produzir efeitos definitivos.

O que muda para o mercado de criptomoedas

A proposta não altera diretamente as regras de funcionamento do Bitcoin, das stablecoins ou de outros ativos digitais negociados no mercado.

O foco está exclusivamente na possibilidade de o Federal Reserve criar uma versão digital oficial do dólar emitida diretamente pelo banco central.

Na prática, o movimento reforça a preferência de parte dos legisladores norte-americanos por soluções desenvolvidas pelo setor privado, incluindo stablecoins lastreadas em dólar.

Para investidores, a medida mostra que o debate regulatório nos EUA continua caminhando em duas frentes paralelas: de um lado, o avanço de regras para stablecoins e criptomoedas; de outro, a resistência crescente à criação de uma CBDC nacional.

Debate deve continuar após 2030

Mesmo com a proibição prevista até o final de 2030, a discussão sobre moedas digitais emitidas por bancos centrais está longe de terminar.

Mais de uma centena de países continuam estudando ou desenvolvendo projetos de CBDC em diferentes estágios. Enquanto isso, os Estados Unidos seguem divididos entre os que defendem inovação estatal e os que preferem modelos baseados no mercado privado.

A cláusula aprovada não elimina permanentemente a possibilidade de um dólar digital. Ela apenas estabelece uma barreira temporal que obriga futuras administrações e futuros congressos a revisitar o tema.

Até lá, o Federal Reserve permanecerá impedido de avançar com uma CBDC de varejo sem uma nova autorização legislativa.