BIS analisa efeito das restrições sobre stablecoins

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) publicou em 21 de julho de 2026 o working paper nº 1370, estudo que compara o comportamento dos depósitos em moeda estrangeira com os fluxos internacionais de stablecoins.

Os pesquisadores concluíram que controles cambiais e restrições ao fluxo de capitais reduzem significativamente a dolarização por meio de depósitos bancários em dólar, mas não encontraram evidências estatísticas de que essas mesmas medidas diminuam a entrada de stablecoins.

Para chegar a esse resultado, os economistas Boris Hofmann, Aaron Mehrotra e Jan Paulick cruzaram dados históricos sobre depósitos em moeda estrangeira com informações sobre movimentações internacionais de USDT e USDC, dois dos maiores emissores de stablecoins do mercado.

Segundo o levantamento, as duas criptomoedas representavam mais de 80% da capitalização das stablecoins analisadas.

Banco Central amplia regras para operações com ativos virtuais

A divulgação do estudo ocorre enquanto o Banco Central do Brasil implementa mudanças relevantes para o mercado nacional de ativos digitais.

A Resolução BCB nº 561, publicada em abril de 2026, atualiza as regras do serviço de pagamento ou transferência internacional, conhecido como eFX. A norma proíbe o uso de ativos virtuais nesse modelo, limita sua prestação a instituições autorizadas pelo Banco Central, amplia as obrigações de reporte e determina a segregação dos recursos dos clientes.

As novas regras entrarão em vigor em 1º de outubro de 2026 e fazem parte da ampliação do enquadramento das operações com ativos virtuais dentro da regulamentação cambial brasileira.

Embora o estudo do BIS não tenha analisado especificamente a regulamentação brasileira, sua publicação coincidiu com esse momento de fortalecimento das normas nacionais.

Dados mostram diferença entre depósitos em dólar e stablecoins

Os pesquisadores utilizaram uma base bastante ampla para comparar os dois tipos de dolarização.

Os dados sobre depósitos em moeda estrangeira abrangem mais de 130 economias, cobrindo o período entre 1990 e 2019. Já as informações sobre fluxos internacionais de USDT e USDC, fornecidas pela Chainalysis, contemplam 184 países entre 2017 e 2024.

IndicadorDados do estudo
Stablecoins analisadasUSDT e USDC
Participação na amostraMais de 80% da capitalização
Países analisados (stablecoins)184
Economias com dados de depósitosMais de 130
Dados de depósitos1990–2019
Dados de stablecoins2017–2024

Os autores observaram que crises econômicas, instabilidade financeira e maior repasse da desvalorização cambial para os preços internos elevam a procura por ativos denominados em dólar, independentemente do formato utilizado.

Crises bancárias impulsionam uso de stablecoins

O levantamento identificou uma relação particularmente forte entre crises bancárias e aumento da demanda por stablecoins.

Segundo o estudo, um aumento de um desvio padrão na frequência de crises bancárias esteve associado a entradas adicionais equivalentes a aproximadamente 0,8% do PIB. Como referência, a média dos fluxos observados na pesquisa foi de 1,7% do PIB.

Os pesquisadores destacam que tanto depósitos em dólar quanto stablecoins apresentam persistência ao longo do tempo. Mesmo após o desaparecimento das condições econômicas que estimularam a dolarização, o uso desses instrumentos tende a permanecer elevado.

Esse comportamento representa um desafio adicional para formuladores de políticas econômicas, especialmente em economias emergentes.

Restrições afetam depósitos, mas não alteram fluxo de stablecoins

A principal diferença encontrada pelo BIS apareceu justamente na resposta às medidas restritivas.

Nos países que exigiam autorização para abertura de contas em moeda estrangeira, a participação mediana desses depósitos ficou próxima de 5%. Já nas economias sem esse tipo de exigência, o indicador superou 30%.

As regressões econométricas apontaram uma dolarização por depósitos 29 pontos percentuais menor nos países que mantiveram restrições entre 2000 e 2016. Quando a análise considerou apenas economias emergentes e em desenvolvimento, essa diferença chegou a 32 pontos percentuais.

No caso das stablecoins, entretanto, os resultados foram diferentes. Entre 2022 e 2023, os fluxos de entrada permaneceram entre 1% e 1,5% do PIB, independentemente da existência de restrições específicas. Os modelos estatísticos não encontraram efeito significativo dessas medidas sobre a movimentação dos ativos digitais.

Infraestrutura das blockchains explica diferença observada

Segundo os autores, a principal explicação está na própria infraestrutura utilizada pelas stablecoins.

Enquanto controles tradicionais conseguem atuar diretamente sobre bancos e outras instituições supervisionadas, ativos como USDT e USDC podem circular por blockchains públicas, plataformas estrangeiras e carteiras autocustodiadas, reduzindo a dependência de intermediários domésticos.

Essa arquitetura amplia as possibilidades de transferência internacional e limita o alcance de mecanismos regulatórios desenhados originalmente para o sistema financeiro tradicional.

No Brasil, o estudo repercutiu nas redes sociais por meio de João Paulo Mayall, cofundador da QR Capital e responsável pelo lançamento do QBTC11, primeiro ETF de Bitcoin da América Latina. Em sua análise, Mayall destacou a diferença entre os resultados obtidos para depósitos bancários e stablecoins, mas afirmou que o debate deve ser tratado sob uma perspectiva técnica, ressaltando que o desafio dos reguladores é ampliar a supervisão sem deslocar atividades para ambientes fora do alcance das autoridades.