CME leva dinheiro tokenizado para liquidação 24/7

A CME Group, uma das maiores operadoras de mercados de derivativos do mundo, está avançando em uma estrutura que permite movimentar dinheiro tokenizado de forma contínua. O projeto foi anunciado em parceria com o BMO Financial Group e o Google Cloud, conectando infraestrutura bancária tradicional a uma rede baseada em tecnologia de registro distribuído.

O anúncio foi feito em 24 de março de 2026, envolvendo operações institucionais de margem, garantias e liquidação. A proposta é permitir que determinados participantes movimentem valor mesmo fora dos horários tradicionais de funcionamento do sistema bancário.

A infraestrutura escolhida é o Google Cloud Universal Ledger (GCUL), uma rede privada e permissionada desenvolvida para integração com instituições financeiras. O sistema permite administrar contas e ativos digitais e realizar transferências dentro de uma infraestrutura voltada ao mercado institucional.

ParticipantePapel no projeto
CME Groupinfraestrutura de mercado e liquidação
BMOinstituição bancária e dinheiro tokenizado
Google CloudGoogle Cloud Universal Ledger
Funcionamentomovimentação de valor 24/7
Aplicaçõesmargem, garantias e liquidação

BMO será banco ligado à solução da CME

O BMO foi anunciado como o primeiro banco a oferecer a solução de dinheiro tokenizado da CME Group utilizando o Google Cloud Universal Ledger. A estrutura permite que clientes institucionais convertam dólares em um instrumento tokenizado para utilização em produtos com margem negociados na CME.

O público inicial não é o investidor de varejo. O instrumento foi projetado para clientes em comum do BMO e da CME Group, incluindo empresas reguladas de serviços financeiros que atuam nos mercados de capitais e no setor bancário comercial.

O plano divulgado em março previa a disponibilização do instrumento institucional durante o segundo semestre de 2026, dependendo de aprovação regulatória. Portanto, o anúncio não significava que toda a estrutura já estaria imediatamente disponível para qualquer cliente do banco.

O BMO informou ainda que a tecnologia cria uma base para oferecer depósitos tokenizados a um conjunto mais amplo de clientes. Esses depósitos poderiam ser utilizados em pagamentos entre empresas, movimentações de tesouraria e aplicações envolvendo dinheiro programável.

Google Cloud Universal Ledger conecta o sistema

A tecnologia central do projeto é o Google Cloud Universal Ledger, conhecido pela sigla GCUL. Diferentemente de redes públicas abertas, a infraestrutura utilizada pela CME é descrita como uma rede privada e permissionada, desenvolvida para facilitar a integração de instituições financeiras tradicionais.

A parceria entre CME Group e Google Cloud não começou em 2026. Em 25 de março de 2025, as empresas anunciaram testes envolvendo pagamentos no atacado e tokenização de ativos usando o GCUL. Naquele momento, a CME informou ter concluído a primeira etapa de integração e testes da tecnologia.

O projeto avançou posteriormente com a participação do BMO. Dessa forma, a iniciativa passou de testes relacionados à infraestrutura de tokenização para uma aplicação bancária concreta envolvendo dinheiro tokenizado e movimentação institucional.

Para o mercado, o ponto técnico relevante é que essa estrutura não depende de uma blockchain pública para funcionar. O objetivo declarado é integrar instituições tradicionais a um ambiente digital programável mantendo uma rede controlada e direcionada a participantes autorizados.

Dinheiro poderá acompanhar mercados que funcionam 24/7

A justificativa operacional da CME é direta: mercados estão caminhando para negociações contínuas, enquanto parte da infraestrutura bancária ainda trabalha com horários e janelas específicas. Isso cria uma diferença entre o momento em que uma instituição precisa movimentar garantias e o momento em que os sistemas tradicionais permitem concluir determinadas transferências.

Suzanne Sprague, Chief Operating Officer e Global Head of Clearing da CME Group, explicou que a tokenização de dinheiro no CME Clearing busca permitir que empresas atendam exigências de margem e obrigações de liquidação em tempo real.

Na prática, clientes do BMO poderão converter dólares americanos em depósitos tokenizados e dinheiro tokenizado 24/7 dentro da estrutura prevista. Entre as aplicações citadas estão horários estendidos de negociação, operações contínuas e transferência de garantias sem depender dos tradicionais horários de corte bancário.

A expansão acompanha uma mudança que a própria CME já realizou no mercado cripto. Em 29 de maio de 2026, futuros e opções de criptomoedas da CME passaram a operar 24 horas por dia, sete dias por semana, com uma janela semanal de manutenção.

CME já movimenta derivativos cripto durante o fim de semana

A entrada da CME no modelo 24/7 não ficou apenas no projeto de tokenização. A empresa colocou sua negociação contínua de futuros e opções de criptomoedas em funcionamento em 29 de maio de 2026.

No primeiro fim de semana após a mudança, foram negociados mais de 7.200 contratos de futuros e opções de criptomoedas, equivalentes a aproximadamente US$ 50 milhões em valor nocional. Nos primeiros seis fins de semana, a própria CME posteriormente informou volume acumulado de US$ 1 bilhão nessa negociação contínua.

A mudança buscou reduzir uma diferença histórica entre o mercado à vista de criptomoedas, que nunca fecha, e o mercado regulado de derivativos. Antes da alteração, movimentos relevantes de Bitcoin durante o fim de semana poderiam ocorrer enquanto determinados produtos institucionais permaneciam fora de negociação.

Com os derivativos cripto já funcionando continuamente, o dinheiro tokenizado representa outra parte da infraestrutura necessária para esse modelo. A intenção é permitir que não apenas a negociação, mas também margem, garantias e liquidação acompanhem operações realizadas fora do horário bancário convencional.

Tokenização aproxima bancos da infraestrutura dos ativos digitais

O projeto da CME, BMO e Google Cloud não transforma dólares automaticamente em criptomoedas como Bitcoin. O modelo envolve representar dinheiro bancário em formato digital tokenizado dentro de uma infraestrutura permissionada voltada a instituições.

O BMO também trabalha na criação de depósitos tokenizados, que representam fundos bancários tradicionais em formato digital. A proposta inclui aplicações mais amplas em pagamentos B2B, tesouraria e movimentação programável de recursos.

O banco tinha US$ 1,5 trilhão em ativos em 31 de janeiro de 2026 e aproximadamente 13 milhões de clientes no Canadá, Estados Unidos e outros mercados selecionados. A participação de uma instituição desse porte coloca a tokenização diretamente dentro da estrutura financeira tradicional, em vez de limitar a tecnologia a empresas nativas do setor cripto.

Para o investidor brasileiro, o fato concreto a acompanhar é a integração crescente entre infraestrutura de blockchain, bancos e grandes mercados regulados. CME Group, BMO e Google Cloud estão aplicando tokenização justamente em uma das áreas mais importantes do mercado institucional: movimentação de dinheiro, margem, garantias e liquidação 24 horas por dia.