Circle recebe aval do OCC para banco fiduciário

A Circle recebeu autorização final do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para lançar o First National Digital Currency Bank, N.A., uma instituição fiduciária nacional dedicada a ativos digitais nos Estados Unidos. Na operação, a estrutura vai usar o nome Circle National Trust e ficará sob supervisão federal direta do OCC, órgão que regula bancos nacionais e trust banks no país.

O movimento coloca a Circle em um patamar regulatório mais próximo do sistema bancário tradicional, mas com escopo limitado. O charter concedido não autoriza a empresa a receber depósitos em dinheiro nem a conceder empréstimos, ou seja, não se trata de um banco comercial clássico. A licença permite atuar com custódia e manutenção de ativos de clientes, dentro do modelo de trust bank.

No lançamento, a operação será mais restrita. Segundo a notícia, o Circle National Trust vai oferecer inicialmente serviços fiduciários de custódia de ativos digitais para a própria Circle e suas afiliadas. O plano aprovado também abre espaço para, no futuro, atender um grupo limitado de clientes institucionais, como bancos e outras instituições financeiras, mas isso não foi descrito como algo imediato.

O que a licença muda — e o que ela não muda

A aprovação do OCC é relevante porque dá à Circle uma estrutura federal própria para operar parte de sua infraestrutura de ativos digitais. Ainda assim, a licença vem com limites claros. O trust bank não nasce como uma instituição para captar dinheiro do público, distribuir crédito ou competir com bancos tradicionais no varejo. O foco está em custódia, governança fiduciária e infraestrutura regulada.

Essa distinção importa para o investidor porque evita leitura errada da notícia. A Circle não “virou banco completo” no sentido clássico do termo. O que ela conseguiu foi um charter nacional fiduciário, um formato regulatório voltado à guarda e administração de ativos sob supervisão bancária federal. Na prática, isso fortalece a posição institucional da empresa, mas não muda o modelo do USDC para algo equivalente a um banco de depósitos.

Outro ponto importante é a gestão das reservas do USDC. Quando entrou com o pedido ao OCC, em 30 de junho de 2025, a Circle indicou que o novo banco poderia supervisionar a administração das reservas da stablecoin sob regulação federal. Agora, segundo a reportagem, essa função aparece como uma capacidade futura, e não como algo implementado já no início da operação.

Pedido começou em 2025 e passou por etapa condicional

O processo regulatório da Circle não foi instantâneo. A empresa apresentou o pedido ao OCC em 30 de junho de 2025 e recebeu uma aprovação condicional em dezembro de 2025. A autorização final divulgada agora é, portanto, a etapa que consolida o projeto e permite à companhia avançar com a estrutura do trust bank dentro dos termos definidos pelo regulador americano.

Na mesma rodada de dezembro de 2025, o OCC também havia concedido aprovações condicionais para pedidos ligados a Ripple, BitGo, Fidelity Digital Assets e Paxos. Isso mostra que o caso da Circle não é isolado: ele faz parte de uma fila mais ampla de empresas cripto tentando ocupar espaço em um modelo regulado de custódia, emissão de stablecoins e serviços institucionais nos Estados Unidos.

A notícia também destaca uma condição relevante do processo. Pelos termos da aprovação condicional, a emissão do USDC deve ser transferida para uma empresa fiduciária de propósito limitado em Nova York, e não para o banco fiduciário nacional. Esse detalhe separa a estrutura do trust bank da operação direta de emissão da stablecoin, o que ajuda a entender por que a autorização federal não centraliza tudo automaticamente dentro da nova entidade.

USDC, Nova York e a estratégia regulatória da Circle

A Circle já vinha construindo presença regulatória antes dessa aprovação do OCC. Em 2015, a companhia se tornou a primeira empresa a receber uma BitLicense do Departamento de Serviços Financeiros do Estado de Nova York (NYDFS). Além disso, segundo a matéria, a empresa também possui licenças no Reino Unido, em Singapura e em Bermuda, o que mostra uma estratégia de expansão baseada em jurisdições reguladas.

No caso do USDC, esse histórico pesa porque stablecoin depende de confiança em três camadas: reserva, emissão e resgate. Quanto mais a emissora consegue se posicionar dentro de estruturas reguladas, mais ela tenta reduzir o desconto de risco que investidores e parceiros institucionais aplicam ao produto. O trust bank federal não resolve sozinho todas as questões do USDC, mas reforça a tentativa da Circle de se vender como infraestrutura financeira regulada, e não apenas como “empresa cripto”.

Jeremy Allaire, cofundador, chairman e CEO da Circle, resumiu esse posicionamento ao dizer que a supervisão federal sobre o trust bank estabelece um novo padrão de transparência, governança e escala. A fala foi citada pela empresa no contexto da aprovação. Para o mercado, o ponto central é menos o slogan e mais o fato concreto: a Circle agora tem um veículo federal próprio, supervisionado pelo OCC, para custodiar ativos digitais dentro de um formato bancário fiduciário.

Corrida por charters cresce entre empresas cripto

A autorização da Circle acontece em meio a uma disputa mais ampla por charters bancários fiduciários e estruturas reguladas para stablecoins nos Estados Unidos. Depois da Circle, também buscaram autorizações junto ao OCC nomes como Ripple, Paxos, Coinbase e Crypto.com. Em 2026, essa fila cresceu ainda mais com World Liberty Financial, apoiada por Donald Trump, Laser Digital ligada ao Nomura, Payoneer, Morgan Stanley, Zerohash, Charles Schwab, EDX, Kraken e Catena Labs.

Algumas dessas companhias já avançaram. A matéria informa que Crypto.com e Coinbase receberam aprovações condicionais, enquanto a Bridge, empresa comprada pela Stripe, obteve autorização condicional em fevereiro. Já o Sony Bank recebeu aprovação condicional nesta semana para uma subsidiária fiduciária chamada Connectia Trust, que pretende emitir uma stablecoin lastreada em dólar.

Até aqui, o número de aprovações plenas ainda é pequeno. Antes do caso da Circle, o setor tinha poucos exemplos de trust banks nacionais aprovados em definitivo: a Anchorage Digital Bank recebeu licença fiduciária nacional em 2021, e a BitGo obteve aprovação completa do OCC em dezembro. A entrada da Circle nesse grupo aumenta a pressão competitiva justamente no segmento em que ela já é protagonista: stablecoins atreladas ao dólar com uso institucional.

Mercado lê a aprovação como reforço ao USDC

A notícia informa que as ações da Circle subiram após o anúncio. Segundo a Reuters, os papéis chegaram a avançar cerca de 10% no pré-mercado depois da aprovação regulatória. O movimento indica que o mercado enxergou a decisão do OCC como um ganho concreto de posição para a empresa, principalmente num momento em que stablecoins estão virando uma das principais frentes de disputa entre fintechs, emissores cripto e grandes instituições financeiras.

Para o trader e investidor brasileiro, a leitura prática passa por dois pontos. O primeiro é que a aprovação fortalece a tese de que stablecoins relevantes nos EUA devem migrar cada vez mais para estruturas reguladas e supervisionadas por órgãos bancários. O segundo é que isso tende a favorecer empresas com caixa, relacionamento regulatório e capacidade de montar infraestrutura institucional — algo que pode ampliar a distância entre emissores grandes e projetos menores.

Também vale observar o componente político. A senadora Elizabeth Warren criticou a decisão do OCC de conceder charters fiduciários nacionais a empresas que, na visão dela, não se enquadrariam nos critérios da National Bank Act. Ou seja: a aprovação da Circle é um avanço regulatório importante, mas não encerra o debate político sobre até onde empresas cripto devem poder operar dentro da moldura bancária americana.