A disputa entre o sistema bancário tradicional e a indústria de criptomoedas ganhou um novo capítulo nos Estados Unidos. Durante entrevista à Fox Business, o CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, afirmou que os grandes bancos americanos vão combater a versão atual da CLARITY Act, projeto de lei que busca criar regras mais claras para o mercado de ativos digitais.

Além das críticas à proposta, Dimon direcionou ataques ao CEO da Coinbase, Brian Armstrong, acusando o executivo de pressionar políticos em Washington para aprovar medidas favoráveis ao setor cripto.

As declarações ampliam um conflito que já vinha crescendo nos bastidores do Congresso americano, especialmente em torno da regulamentação das stablecoins.

Jamie Dimon promete resistência dos bancos à CLARITY Act

Segundo Dimon, a estrutura atual da CLARITY Act cria desequilíbrios regulatórios entre bancos e empresas de criptomoedas.

Durante a entrevista, o executivo declarou que os bancos americanos “não aceitarão” o projeto da forma como ele está redigido atualmente.

A principal preocupação do JPMorgan envolve a possibilidade de plataformas cripto oferecerem produtos semelhantes a depósitos bancários sem cumprir exigências equivalentes de supervisão, capital regulatório e proteção ao consumidor.

O CEO também afirmou que, caso o texto avance sem alterações relevantes, o setor bancário deverá aumentar sua atuação política para tentar modificar a legislação.

Stablecoins viram principal foco do embate

O centro da discussão está nas stablecoins atreladas ao dólar.

Segundo os críticos da proposta, empresas de criptomoedas poderiam oferecer remuneração sobre stablecoins de maneira semelhante aos juros pagos por bancos em contas e depósitos.

Hoje, determinados programas ligados ao USDC oferecem rendimento próximo de 3,5% ao ano, valor significativamente superior às taxas encontradas em muitas contas correntes tradicionais nos Estados Unidos.

Os bancos argumentam que isso cria uma competição direta pelo dinheiro dos clientes sem que as plataformas cripto sejam submetidas às mesmas regras do sistema financeiro tradicional.

Entre os pontos levantados pelas instituições financeiras estão:

Coinbase e Brian Armstrong entram na mira

Jamie Dimon também elevou o tom contra Brian Armstrong durante a entrevista.

Segundo o CEO do JPMorgan, Armstrong estaria investindo “centenas de milhões de dólares” em lobby político para apoiar a aprovação da CLARITY Act.

O executivo afirmou que nenhuma empresa deveria ter influência suficiente para direcionar mudanças regulatórias dessa magnitude.

A crítica ocorre em um momento em que a Coinbase ampliou significativamente sua presença política em Washington.

Nos últimos ciclos eleitorais, empresas ligadas ao setor cripto passaram a investir fortemente em campanhas, comitês de ação política e iniciativas voltadas à regulamentação dos ativos digitais.

Armstrong se tornou uma das principais vozes do setor na defesa de uma legislação específica para criptomoedas e stablecoins.

Congresso avança com projeto mesmo sob pressão bancária

Apesar da resistência dos bancos, a CLARITY Act continua avançando dentro do processo legislativo americano.

A proposta passou recentemente pelo Senate Banking Committee, presidido pelo senador republicano Tim Scott, da Carolina do Sul.

Segundo Scott, o projeto não favorece bancos nem empresas cripto, mas busca criar uma estrutura regulatória capaz de acomodar inovação financeira e proteção ao consumidor.

A tramitação ganhou força após o aumento da pressão da indústria cripto por regras mais claras para:

O debate ocorre em paralelo a outras propostas voltadas ao mercado de ativos digitais dentro do Congresso dos Estados Unidos.

Bancos temem migração de depósitos para stablecoins

Nos bastidores, o receio do setor bancário vai além da regulamentação.

Grandes instituições financeiras avaliam que stablecoins remuneradas podem competir diretamente com contas bancárias tradicionais.

Na prática, parte dos clientes poderia preferir manter saldo em ativos digitais que oferecem rendimento superior ao das contas correntes convencionais.

Para os bancos, isso poderia reduzir a base de depósitos utilizada para financiar empréstimos, crédito imobiliário e outras operações financeiras.

Dimon afirmou que permitir remuneração sobre stablecoins sem exigir padrões equivalentes aos dos bancos criaria uma assimetria regulatória perigosa.

O executivo chegou a alertar que determinadas estruturas poderiam eventualmente gerar problemas sistêmicos caso crescessem sem supervisão adequada.

Conflito mostra disputa por espaço no sistema financeiro

A discussão em torno da CLARITY Act já ultrapassou o campo da tecnologia e entrou diretamente no terreno da concorrência financeira.

De um lado estão bancos como JPMorgan, que defendem regras equivalentes para qualquer empresa que ofereça produtos semelhantes a depósitos.

Do outro lado estão empresas cripto que argumentam que a legislação atual foi criada para um sistema financeiro diferente e que ativos digitais exigem estruturas regulatórias próprias.

O conflito também ajuda a explicar por que as stablecoins se tornaram uma das áreas mais disputadas do mercado.

Com bilhões de dólares movimentados diariamente e crescente integração com pagamentos, remessas internacionais e plataformas financeiras, o segmento passou a ser visto tanto como oportunidade quanto como ameaça por diferentes participantes do mercado.